O que acontece numa sessão de psicoterapia infantil?
- Juliana Pigolli
- 24 de out. de 2025
- 3 min de leitura

“A criança fala brincando o que não consegue dizer com palavras.” — Virginia Axline, pioneira da psicoterapia infantil centrada na criança
Ao buscar apoio psicológico para um filho, é comum que pais se perguntem: “Mas o que exatamente acontece numa sessão de terapia infantil?”
Diferente da psicoterapia com adultos (centrada na fala e na autorreflexão), a psicoterapia com crianças acontece essencialmente no universo simbólico e lúdico. A criança brinca, desenha, inventa histórias, movimenta o corpo. E, nesse processo, ela expressa, elabora, organiza e cura o que sente.
🎨 O brincar como linguagem terapêutica
Donald Winnicott afirmava que o brincar é a atividade central da infância e que é no brincar que a criança se torna real para si mesma. Na terapia, o brincar é levado a sério. Ele é meio de comunicação, diagnóstico e intervenção ao mesmo tempo.
“É brincando que a criança cria o mundo e, ao mesmo tempo, se revela nele.” — Donald Winnicott
Na psicoterapia infantil, usamos materiais como:
Massinha, argila, tinta
Bonecos e miniaturas
Fantasias, instrumentos, tecidos
Livros, jogos simbólicos
Caixa de areia, casinhas, blocos
Tudo isso é ferramenta para acessar o mundo interno da criança, respeitando o seu tempo, suas defesas e seu modo próprio de elaborar experiências.
🤲 O papel do psicoterapeuta infantil
O psicólogo infantil não força a fala, nem faz a criança “confessar” o que sente. Ele cria um espaço seguro, acolhedor e permissivo, onde a criança se sinta livre para ser, sentir e criar.
Com base na abordagem teórica que utiliza (gestalt-terapia, fenomenologia, psicanálise, abordagem centrada na criança, comportamental, etc.), o terapeuta vai:
Observar padrões de comportamento e expressão simbólica
Ajudar a criança a desenvolver recursos internos de enfrentamento
Nomear e dar contorno às emoções
Trabalhar vínculos, separações, perdas e conflitos
Criar uma relação terapêutica que funcione como modelo de cuidado
“A relação com o terapeuta é, muitas vezes, o primeiro espaço onde a criança é profundamente escutada.” — Carl Rogers
👨👩👧 E os pais? Participam do processo?
Sim! E com papel fundamental. A psicoterapia infantil não é feita apenas com a criança, mas com o sistema ao qual ela pertence. Os pais (ou cuidadores principais) são acompanhados ao longo do processo, seja por meio de:
Entrevistas iniciais detalhadas
Sessões de orientação parental
Devolutivas periódicas
Alinhamentos com escola (quando necessário e autorizado)
Essas conversas ajudam a compreender o contexto familiar, orientar práticas parentais mais eficazes e criar um ambiente de suporte fora do espaço terapêutico.
No início do processo terapêutico, é importante que o psicólogo reforce com os pais ou cuidadores que o campo entre criança e ambiente precisa ser trabalhado como um todo e não apenas a “parte que manifesta o sintoma”.
🪞 E o que a criança ganha com isso?
Ao longo do processo psicoterapêutico, a criança:
Aprende a reconhecer e nomear o que sente
Desenvolve recursos internos para lidar com frustrações e desafios
Trabalha medos, perdas, inseguranças e traumas
Fortalece sua autoestima e espontaneidade
Encontra um lugar seguro para ser inteira com suas emoções, limites e potências
✨ Em resumo:
A psicoterapia infantil é uma forma profunda de escuta e cuidado emocional, centrada no brincar e na expressão simbólica;
O terapeuta oferece um espaço seguro para que a criança se revele, se reorganize e crie novas formas de estar no mundo;
Os pais são parte ativa do processo e contribuem imensamente para os avanços terapêuticos;
O objetivo não é “consertar” a criança, mas ajudá-la a florescer com suporte, afeto e consciência.
📌 Dica para pais e responsáveis:
Ao conversar com a criança sobre a terapia, evite dizer:
“Você vai ao psicólogo porque está se comportando mal.”
Prefira: “A gente vai num lugar onde você pode brincar, conversar e aprender mais sobre o que você sente.”
Isso evita que a criança associe o cuidado emocional à punição e abre espaço para ela viver o processo com confiança e abertura.




Comentários