O papel da família no processo terapêutico da criança
- Juliana Pigolli
- 24 de out. de 2025
- 3 min de leitura

“Não adianta cuidar da flor sem olhar para o solo onde ela cresce.”
Quando uma criança entra em psicoterapia, ela não chega sozinha, ela chega com sua história, seu ambiente, seus vínculos, suas experiências de afeto e de dor. E grande parte desses aspectos está diretamente relacionada à sua família.
Por isso, a terapia infantil não se limita ao trabalho com a criança. O envolvimento dos pais ou cuidadores é fundamental para que o processo tenha profundidade, continuidade e resultados reais.
🌿 Família: parte do cuidado, não do problema
Em vez de ver os pais como “causadores do sintoma”, a psicologia do desenvolvimento os enxerga como potenciais aliados no processo de transformação. Mesmo quando há conflitos, dificuldades ou falhas (e elas existem em todas as famílias), a presença disponível dos cuidadores é um fator protetivo e restaurador para o desenvolvimento emocional da criança.
Donald Winnicott, pediatra e psicanalista, falava sobre a importância de uma “mãe suficientemente boa”, um adulto que não é perfeito, mas é consistente, sensível e disponível para reparar quando erra. É isso de que uma criança precisa: alguém que a veja e a acompanhe com verdade.
🧠 A criança melhora e a família também aprende
Durante o processo terapêutico, a família pode:
Compreender melhor os sentimentos e necessidades da criança
Rever formas de comunicação e estabelecer novos canais de diálogo
Ajustar expectativas, limites e rotinas
Acolher sua própria história emocional e seus gatilhos inconscientes
Em muitos casos, a mudança no ambiente familiar já é suficiente para que a criança se reorganize emocionalmente.
Quando o seu entorno se torna mais consciente, a criança se liberta de muitos pesos que não são seus.
💬 Como a família participa, na prática?
A participação da família pode variar conforme a abordagem teórica e o caso clínico, mas geralmente envolve:
🔹 Entrevista inicial
Para conhecer a história da criança, entender o motivo da busca por terapia e levantar informações sobre dinâmica familiar, marcos de desenvolvimento e relações escolares e sociais.
🔹 Sessões de devolutiva
Após as primeiras sessões com a criança, o terapeuta compartilha percepções, hipóteses e orientações, criando um canal de diálogo com os pais.
🔹 Acompanhamentos periódicos
Mesmo que a terapia se concentre na criança, é essencial conversar com os pais de tempos em tempos, para ajustar estratégias, reforçar avanços e acolher as dúvidas que surgem.
🔹 Orientações práticas
O terapeuta pode propor pequenas mudanças em casa, como criar rituais de conexão, rever a rotina, lidar de outro modo com os limites ou explorar novas formas de comunicação afetiva.
🧩 Quando os pais também precisam de apoio?
Durante o processo terapêutico, pode acontecer de os pais se depararem com dores antigas, culpas, cansaços ou repetições de que não estavam conscientes. Nestes casos, o psicólogo pode encaminhar ou sugerir que os próprios cuidadores também busquem um espaço terapêutico — não como julgamento, mas como um ato de autocuidado e fortalecimento do vínculo familiar.
“Cuidar de si é, muitas vezes, o primeiro passo para cuidar do outro.”
✨ Em resumo:
O envolvimento da família é essencial para o sucesso da psicoterapia infantil;
Quando os pais se tornam parceiros no processo, a criança se sente segura para crescer e mudar;
A escuta do psicólogo não se dirige apenas à criança — mas também ao contexto em que ela vive e se desenvolve;
Cuidar da criança é cuidar do ambiente ao redor dela — com afeto, consciência e presença.
📌 Dica para pais e responsáveis:
Durante o processo terapêutico do seu filho, pergunte a si mesmo:
“Como eu posso ser um apoio mais sensível nesse momento?”
“O que esse sintoma está tentando nos contar como família?”
Mais do que tentar “resolver” a criança, coloque-se ao lado dela como um porto seguro , alguém disposto a crescer junto.




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